Salvador, 13 de Dezembro de 2017

A Gruta dos Brejòes (ii)

Gruta dos Brejões, a Biblioteca do Rio Jacaré.

Mylène Berbert-Born, Serviço Geológico do Brasil-CPRM

 Grande e pequeno são medidas essencialmente relativas. Em uma paisagem, a sensação do “grande” é a medida do quanto nos sentimos pequenos quando nela inseridos. A Gruta dos Brejões nos traz essa noção: como somos pequenos!

Partindo da vila, a lenta aproximação a pé permite que o nosso referencial cotidiano seja lentamente reconstruído. À frente há um imenso portal para outro mundo bastante real e valoroso, revelado pela ciência a passos lentos e ainda incipientes. Em pouquíssimos lugares do Brasil o nosso organismo se verá assim, tão magnetizado. Um misto de se sentir subjugado e ao mesmo tempo favorecido. Abençoado!

Abençoado por um braço, o tal braço do Romão Gramacho, águas do rio Jacaré que vêm esculpindo a imensa caverna. Interessante perceber que há um cotovelo muito bem desenhado nesse braço. É que há uma anomalia no traçado do vale justo ali onde está a gruta. Trata-se de uma curvatura diferente conformando a drenagem, que só se torna evidente quando observada a bacia hidrográfica como um todo. Uma revelação com um significado geológico suspeito, que depende de um olhar amplo para ser percebido.

Falar em Gruta dos Brejões é sempre assim, pensando grande: o pórtico numa escarpa de 120 metros de altura, amplas galerias subterrâneas, clarabóias e seus gigantescos blocos desmoronados, espeleotemas bem desenvolvidos em tamanho e quantidade, e um grande volume de sedimentos derivados do rio e do progressivo recuo erosivo de seus desfiladeiros. Destoante da imensa paisagem que a tudo engole, lá está um sereno rio subterrâneo ainda em atividade. Estudos dizem que está maculado por coliformes invisíveis aos olhos; mas o rio ainda guarda importantes espécies de peixe.

Diga-se de passagem, a Gruta dos Brejões também é grandiosa por coisas muito “pequenas”, notadas quando, num sentido inverso, a percepção alcança um nível de detalhe. Num exame microscópico ou químico dos seus minerais, lá estão elementos que registram informações sobre o clima, a água, a vegetação, a vida ao longo do tempo. Enfim, sinalizadores de uma história muito dinâmica da natureza local.

Outros tesouros da natureza ainda esperam ser descobertos, em meio ao que vem sendo acumulado há alguns milhares de anos. Do que já se sabe, fósseis e microfósseis informam uma ecologia distinta de hoje, sob clima mais úmido que o atual. Vale lembrar, ainda, a forte interação que existe entre os elementos da superfície e o subterrâneo, especialmente quando há um rio que aporta materiais, utilizados numa cadeia alimentar que tem animais perfeitamente adaptados à falta da luz.

O rio já foi diferente. Bem mais caudaloso, como garantem os grãos sequencialmente depositados em altos degraus, e pelo que se constata da energia que os erodiu ciclicamente. As formas que a água imprimiu na rocha também podem ser lidas e interpretadas, nesse verdadeiro livro que registra a longa história do rio Jacaré e do seu ambiente circundante. A Gruta dos Brejões é isso, a “Biblioteca do rio Jacaré”.

Nessa biblioteca há um livro que detalha a história mais recente do rio, mais ou menos seus últimos dez mil anos, quando o homem aparece como personagem. Na pré-história é um elemento que interage com a paisagem; agora, um agente que interfere.

Enfim, quem já andou bastante por aí pode dizer com absoluta certeza: é realmente um privilégio alcançar a Gruta dos Brejões. Que dirá, então, o privilégio de quem a tem como patrimônio nativo! A Gruta dos Brejões é orgulho para qualquer brasileiro, por isso a comunidade de Morro do Chapéu e seus vizinhos devem tê-la junto a seus pertences mais preciosos. Falo de um sentimento saudável de apropriação cultural de um ambiente, que tanto mais se legitima quanto mais se passa a conhecê-lo. Esse domínio e afeição, tal qual se tem pela própria casa, é o que potencializa a sua utilização e também a limita.

Eis o ponto. Potencializar benefícios e limitar o mal uso de um território ou patrimônio requer um diagnóstico preciso do ambiente, o “Diagnóstico Ambiental”. O ordenamento do uso é então estabelecido conforme as vocações e fragilidades constatadas para cada segmento do território, cada qual uma “Zona Ambiental”. As estratégias para a melhor ocupação das zonas ambientais é o que se chama de manejo do território. Tudo é estabelecido dentro de um plano global de uso e ocupação, o “Plano de Manejo”, que além de tudo prevê um monitoramento constante da qualidade do ambiente.

Diagnóstico, Zoneamento e Plano constituem etapas obrigatórias do ordenamento de terrenos de valor ecológico, científico ou cultural, assim reconhecidos quando constituem Unidades de Conservação da Natureza-UC (Lei 9.985 de 2000). Dependendo do objetivo que se pretenda alcançar, se mais restritivo ou mais inclusivo ao homem, as UCs poderão ser de “Proteção Integral” ou de “Uso Sustentável”. Enquanto Parques e Monumentos Naturais, entre outras categorias de proteção integral, proibem consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais, Áreas de Proteção Ambiental (APAs) e outras tipologias de uso sustentável reconhecem a importância dos atributos locais justamente para o bem estar dos que ali habitam, admitindo portanto o uso comercial sustentável dos recursos naturais. Nesse caso, resta tudo conciliar.

Exatamente para assegurar a harmonia das comunidades sertanejas em um ecossistema regional rico em formações geológicas, cavernas, sítios arqueológicos, fauna e flora vivas e fósseis é que foi criada a APA Gruta de Brejões/Veredas do Romão Gramacho (Decreto Estadual 32.487 de 1985). O seu zoneamento, com base no diagnóstico do ambiente, só ocorreu após dezessete anos da criação (Resolução CEPRAM 3.047 de 2002). Desde então outros dez anos praticamente se passaram e é possível afirmar que os objetivos de conservação do ambiente e o seu proveito pelos nativos ainda não alcançou plenitude.

A vocação turística e religiosa da Gruta dos Brejões e a paisagem associada está submetida a uma legislação específica que trata do Patrimônio Espeleológico Nacional. Ela prevê a elaboração de um Plano de Manejo especialmente formulado para a visitação e outras atividades envolvendo a caverna e a sua área de influência. Em 1995, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) esboçou uma caracterização geral da caverna, chamando atenção para peculiaridades, fragilidades e inadequações da visitação naquele ambiente. Novos investimentos são necessários agora para o detalhamento do ambiente, de forma a se considerar, entre outros aspectos mais minuciosos, a sazonalidade dos parâmetros que descrevem aquele ambiente. Esses parâmetros dinâmicos subsidiarão um zoneamento mais preciso e incisivo, que será base para as regras de uso da caverna.

Estratégias que fomentem a organização e a integração de outras atividades econômicas peculiares ao local, trazem perspectivas verdadeiramente compartilhadas e solidárias em torno da Gruta dos Brejões. Ao mesmo tempo, é essencial reconhecer que a organização e o controle do espaço são responsabilidades prévias, providências estruturantes a serem tomadas de antemão. A “Biblioteca do rio Jacaré” contém um acervo de referência mundial, por isso as suas estantes devem estar impecáveis. Então... mãos à obra!

 

 

Utilize o espaço abaixo para contribuir com informações, sugestões, elogios ou críticas ...

Sua mensagem será moderada antes de aparecer para o público.


(Obrigatório)
Este campo é obrigatório.Formato de e-mail inválido.

Desenvolvido por Éder Lima